A sinestesia descreve uma experiência incomum: ouvir um som e associá-lo imediatamente a uma cor. Para quem vivencia o fenômeno, essa relação surge de maneira automática.
Mas por que isso acontece e como diferenciar essa percepção de uma associação comum? Continue a leitura para conhecer os tipos de sinestesia e entender o que a Neurociência já descobriu sobre o tema.
O que é sinestesia e quais são os principais tipos?
A sinestesia é uma forma de percepção em que um estímulo desperta automaticamente uma experiência adicional. Um som, por exemplo, é ouvido normalmente e também pode provocar a percepção de uma cor, forma ou movimento.
Essa associação não depende da vontade ou da imaginação. Segundo uma revisão publicada no Annual Review of Psychology, a automaticidade e a consistência estão entre as principais características do fenômeno.
Na prática, o mesmo estímulo costuma provocar uma resposta semelhante ao longo do tempo. As associações são individuais: uma nota musical pode parecer azul para uma pessoa e vermelha para outra.
Essa cor nem sempre é vista no ambiente. Algumas pessoas a percebem mentalmente, enquanto outras a descrevem como se estivesse diante dos olhos.
Entre os tipos de sinestesia mais conhecidos estão:
- Cromestesia: sons, vozes ou músicas despertam cores, formas ou movimentos;
- Sinestesia grafema-cor: letras, números e símbolos são associados a cores específicas;
- Sinestesia léxico-gustativa: determinadas palavras despertam experiências relacionadas a sabores;
- Sinestesia de sequência espacial: números, meses ou dias da semana ocupam posições definidas no espaço;
- Sinestesia espelho-toque: observar outra pessoa sendo tocada desperta uma sensação semelhante no próprio corpo.
A sinestesia também não é apenas uma metáfora. Dizer que uma música parece “quente” ou “azul” para expressar uma impressão é diferente de experimentar essa associação de maneira automática e recorrente.
Por que algumas pessoas enxergam sons e sentem cores?
Agora que você conhece os principais tipos, surge a pergunta do título: por que essas associações aparecem? A resposta ainda não está fechada, mas as pesquisas apontam alguns caminhos. Veja o que a Neurociência já descobriu.
O cérebro integra os estímulos de maneira particular
Audição, visão, tato, paladar e olfato não funcionam como sistemas completamente isolados. O cérebro combina informações de diferentes origens para construir uma percepção integrada do ambiente.
Na sinestesia, essa comunicação ocorre de uma maneira particular. Um estímulo processado por determinada rede também desperta uma experiência relacionada a outra forma de percepção.
Uma das explicações investigadas é a ativação cruzada. De acordo com esse modelo, determinadas redes cerebrais apresentam uma comunicação mais intensa, permitindo que a atividade relacionada a um estímulo alcance outras áreas.
Outra hipótese envolve uma redução da inibição entre essas redes. Nesse caso, conexões presentes no cérebro permitiriam uma circulação maior das informações entre sistemas normalmente mais separados.
Uma revisão sobre sinestesia e conectividade cortical mostra como essas diferenças ajudam a investigar o fenômeno. Ainda assim, não existe um único mecanismo confirmado para todos os tipos de sinestesia.
A genética e o desenvolvimento também podem influenciar
A sinestesia do desenvolvimento costuma aparecer nos primeiros anos de vida. Algumas associações se tornam mais definidas conforme a criança aprende letras, números, meses e outros conceitos.
Isso não significa que a experiência seja ensinada intencionalmente. O aprendizado oferece os símbolos que funcionarão como estímulos, enquanto a associação adicional surge de forma automática.
Também existem casos de sinestesia em diferentes integrantes da mesma família. Essa recorrência indica que fatores genéticos participam do desenvolvimento da experiência.
Um estudo do Instituto Max Planck de Psicolinguística e da Universidade de Cambridge analisou três famílias com sinestesia som-cor. Os pesquisadores identificaram variantes raras em genes envolvidos na formação das conexões neurais.
Os resultados não apontam um único “gene da sinestesia”. Eles sugerem que diferentes fatores genéticos podem participar do desenvolvimento do fenômeno.
Desenvolvimento cerebral, herança genética e aprendizado podem atuar em conjunto. Essa combinação também ajuda a explicar por que as experiências variam tanto entre as pessoas.
Como saber se uma pessoa tem sinestesia?
Conhecer as possíveis explicações ajuda a entender a origem dessas associações. Para reconhecê-las, porém, é preciso observar como surgem e se repetem. Algumas características ajudam nessa diferenciação.
As associações costumam ser automáticas e consistentes
Muitas pessoas com sinestesia passam anos acreditando que todos percebem o mundo da mesma forma. A diferença costuma ficar evidente quando elas comentam suas experiências com outras pessoas.
Entre as características observadas em pessoas com sinestesia estão:
- a associação surge sem esforço ou escolha consciente;
- um estímulo específico costuma despertar a experiência;
- a resposta permanece semelhante ao longo do tempo;
- a percepção pode existir desde a infância;
- a experiência faz parte da rotina da pessoa.
A consistência não significa que todas as pessoas associem a letra “A” à mesma cor. Significa que, para um mesmo indivíduo, essa letra tende a despertar repetidamente uma tonalidade semelhante.
Em pesquisas, testes repetem as associações em momentos diferentes para observar sua estabilidade. Questionários online podem ajudar alguém a conhecer o tema, mas não funcionam como um diagnóstico médico.
Mudanças repentinas na percepção merecem avaliação
A sinestesia presente desde o desenvolvimento geralmente não é considerada uma doença. Ela costuma representar uma maneira particular de o cérebro processar informações sensoriais.
A experiência também é diferente de uma alucinação. Na sinestesia, existe um estímulo identificável que desperta uma associação específica, como um som que provoca a percepção de determinada cor.
Existem, porém, relatos de experiências sinestésicas que começam após lesões neurológicas, perda sensorial ou exposição a determinadas substâncias. Esses casos adquiridos são diferentes da forma que acompanha a pessoa desde a infância.
Quando as alterações perceptivas surgem repentinamente ou aparecem com outros sinais neurológicos, uma avaliação médica é indicada. O objetivo é investigar o contexto e identificar outras possíveis causas.
Como vimos, a sinestesia faz com que sons, letras e palavras despertem cores, formas ou sabores automaticamente. A Neurociência relaciona o fenômeno às redes cerebrais, ao desenvolvimento e à genética. Embora as associações sejam individuais, a automaticidade e a consistência ajudam a reconhecê-las.
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